Sábado, 17 de Dezembro de 2011

Na sequência da publicação do relatório oficial da GNR sobre a morte de Catarina Eufémia, a Não confirmo nem desminto apresenta, em exclusivo, aos seus leitores o verdadeiro relatório do caso que chocou o Alentejo. Esta versão é a verdadeira, não censurada, escrita pela mão do próprio tenente Carrajola – autor do disparo fatal - e foi obtida à custa de uma investigação detalhada de mais de 15 minutos e com a ajuda do suborno de um oficial da GNR com pães de alho congelados do LIDL.

 

Data da ocorrência: 19 de maio de 1954

Descrição da População: Uma porradaria de baleizoeiros.

Índole da População: Andam um bocado amofinados mas aquilo passa.

Situação económica, política e social: Acreditam em ideias subversivas do tipo “a terra gira à volta do sol” e “um mundo mais livre e justo para todos”.

 

Na véspera do dia da ocorrência, depois de ter tomado o segundo pequeno-almoço (passarinhos fritos), saí para a patrulha. Aquilo custou-me um pouco porque estava a usar umas botas de montar dois números abaixo do meu. Tinha de os alargar para o chefe do posto. O piolhoso… Mas estava lá eu andando por Baleizão e cruzei-me com o Anacleto, um jovem de 18 anos que me lançou um olhar manhoso. O bicho dum raio tinha-me vendido umas línguas de gato fora do prazo e passei a noite com a minha barriga a imitar a automotora atravessando o Guadiana num dia de chuva. Eu já andava desconfiado daquele magano, sempre com a mania de andar com um livro debaixo do braço. Ah, que o menino sabe ler, armado ao pingarelho… Estava ansioso por o prender. Eu sabia que ele snifava restaurador Olex. Só me faltava apanhá-lo em flagrante. Perguntei-lhe onde é que ia e ele respondeu-me que ia com umas amigas falar com um rancho de ceifeiras. Para quê? Falou qualquer coisa em organizar um torneio de monopólio. E eu estranhei aquilo porque não é jogo que um comunista jogue. Ainda se fosse à malha ou ao mikado, ainda vá, mas assim fiquei desconfiado… Ninguém come as papas na cabeça aqui do Carrajola. Segui o suspeito e fui dar com ele a falar com as ceifeiras, todos com uns papéis a dizer “Avante” e umas estrelas desenhadas. Era o que faltava deixá-los fazer ali um certame de astrologia. Qualquer dia dizem que o homem vai chegar à Lua em poucos anos… Comecei a tocar no apito para chamar reforços e eles tocaram num sino para chamar outros companheiros de trabalho. Apeteceu-me multá-los logo por excesso de ruído. Os trabalhadores a reivindicar melhores salários e não sei quê. Até metiam dó! Qualquer dia só querem trabalhar 18 horas em vez das 20 que deviam fazer… As coisas começaram a aquecer até que eu vi uma rola a pairar numa oliveira. Pensei, já tenho almoço! Peguei na minha arma automática e apontei para o bicho. Só que havia um problema: tínhamos lanchado fatias de pão com manteiga de cor e não havia guardanapos. Como me esqueci de limpar as mãos aos bolsos das calças, a arma escorregou, bateu no chão e deu três voltas no ar, como o Ricardo Chibanga depois de ter levado uma cornada. Eu, assarapantado, ainda a tentei apanhar, mas só consegui premir o gatilho, escorreguei num pedregulho e estatelei-me no chão – ainda hoje me doem os costados. Quando, finalmente, me consegui levantar reparei que a arma tinha atingido a Catarina Eufémia. Que fique bem claro que não fui eu quem disparou. Foi tudo um acidente! Houve, porém, dois senhores que me tentaram atacar, mas levaram logo com umas vergastadas no lombo e foram levados para Peniche. Garantiram-nos que só iam para lá por causa da pesca dos bivalves.

 

Por ser verdadeiro tudo o que disse e mais não sei quê, assino

 

Tenente “mãozinha leve” Carrajola

 

Texto publicado na página Não confirmo, nem desminto do Diário do Alentejo



publicado por Ricardo Cataluna às 14:25 | link do post | Não confirmo, nem desminto

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