Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012

Nascido e criado na década de 80, fui um dos milhares de jovens que foi alvo da pergunta mais colocada de todos os tempos: o que é que queres ser quando fores grande? Lembro-me que, pelo menos na minha geração, havia respostas para todos os gostos: médico, advogado, bombeiro, …, e até mesmo futebolista ou cantor – se bem que estas últimas eram vistas quase como o meio caminho para a droga ou acabar na sarjeta como o outro tipo que cantava com o George Michael nos Wham. Atenção: estamos a falar de uma altura em que o Tang era tido como um produto saudável e lanchar Tulicreme à colherada era considerado uma merenda perfeitamente aceitável em algumas cidades do país. É verdade que os anos oitenta foram anos de libertação e excesso (credo, nós comíamos malacuecos na Feira de agosto feitos por um tipo com um dente e a unha do dedo mindinho cheia de sarro!), mas havia alguns padrões minimamente aceitáveis… Tínhamos, apesar dos erros, algum brio: tínhamos vergonha de ter uma negativa, e se a professora mandava um recado aos nossos pais, sabiamos que estávamos tramados… Hoje, se dizemos que o professor obrigou o aluno a estudar, é o docente que está tramado e pode começar a rezar para não ser colocado numa escola no Afeganistão ou, pior ainda, ter uma turma de miúdos que pertencem a um gang especialista em grafitti, guerrilha urbana e waterboarding. O que eu quero dizer é que nós tinhamos padrões, mesmo que muito rascas, e para se ser alguém que se destacasse, tinha de se ter um propósito, um talento ou trabalhar no duro. Hoje também há pessoas briosas, mas infelizmente são cada vez mais a exceção, e para se ser famoso não é preciso muito… Veja-se os reality shows, que estão sempre de regresso à nossa televisão, e têm como único objetivo criar “celebridades”. É verdade que também não é qualquer um que entra nesses programas… Os recrutadores são extremamente exigentes na escolha dos participantes e há atributos nos candidatos que são analisados até à exaustão, ou talvez até à hora do primeiro café da manhã: eles devem ter um palminho de cara e, se possível, ostentar uns abdominais que também servem para ralar queijo; elas devem ter um palminho de cara e implantes de silicone com um QI superior ao delas. Mas não é preciso mais nada… Até porque, se formos a ver bem, o grande feito que muitos dos concorrentes nesses programas alcançaram na vida foi atravessar o canal de parto. Aliás, se não fosse certa comunicação social a tratar do resto da magia que encanta pessoas pelo mundo fora, com títulos como “Raquel chateou-se com Luísa por causa de Daniel T.”, “Daniela revela que já foi acompanhante, portadora de ébola e responsável pelo caso BPN”, ou “João F. matou Laura Palmer e entregou a Maddie a marcianos”, nunca saberíamos o que estávamos a perder... A sério? Como é possível ignorar estes “factos”? Como conseguimos dormir à noite perante esta catadupa de “informação”?… E é assim que pessoas desinteressantes passam a ser famosas e ser famoso passa a ser, por si só, uma profissão, com direito a código das finanças e tudo!  A pessoa passa a ser conhecida porque aparece, porque existe, porque exerce atividades duríssimas como inspirar ou expirar, ou, mais difícil, colocar uma perna à frente da outra em movimentos sucessivos – aquilo a que os especialistas chamam de andar. E nós deixamos e incitamos a que isto aconteça?! Está na hora de mudar! E porque não começar com coisas simples? Que tal tomar um duche frio ou falar com a pessoa com quem vive e da qual já nem se lembra do nome? Abandone o seu PC por alguns instantes: garanto-lhe que o céu lá fora é muito mais bonito do que no ambiente de trabalho.   

 

Texto publicado na página Não confirmo, nem desminto do Diário do Alentejo

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publicado por Ricardo Cataluna às 10:07 | link do post | Não confirmo, nem desminto

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