Quarta-feira, 26 de Setembro de 2012

Prezado leitor, o assunto que lhe trago hoje é da maior importância. Trata-se de algo que está a minar este planeta e é, em última análise, aquilo que está a desregular esta sociedade e a transformá-la numa selva. Falo, como é evidente, dos aparelhos de GPS. Não há telemóvel, tablet, micro- ou mesmo canivete suíço que não tenha um sistema de posicionamento global. O meu telemóvel tem GPS, o que me deixou (inicialmente) satisfeito. Pensei quando o adquiri que “agora sim, nunca mais me perderia”, o GPS ajudar-me-ia a seguir, literalmente, o meu caminho… Nada de mais errado. Ao que parece, os sistemas de GPS são muito finos: têm de ter os mapas atualizados, as suas baterias têm de ser recarregadas a toda a hora, os seus chakras devem estar sempre alinhados, e chantageiam-nos com idas a restaurantes requintados se queremos que nos deem indicações corretas…, enfim, precisam de muita manutenção! Estará o leitor a pensar, “isso és tu que não tens jeitinho nenhum para trabalhar com eles!”. Até pode ser, mas desconfio que o meu GPS me quer mal – se escolho a opção “caminho mais curto”, habilito-me a viajar por caminhos de cabras e a cruzar desfiladeiros agarrado a uma liana; se escolho a opção “caminho mais rápido de carro”, leva-me para autoestradas tão caras que quando o portageiro me pede o dinheiro, a minha vontade é entregar-lhe as chaves da viatura e dizer: “Vendido!”. Mas isto não é nada… Numa recente ida a Lisboa, o meu GPS aliciou-me, por várias vezes, a seguir por sentidos proibidos e ruas cortadas, para além de me incentivar a atropelar lisboetas que contam (mal) anedotas de alentejanos. A seguir, a meio da Ponte 25 de Abril, a senhora de voz metalizada dentro do aparelhómetro disse-me “Vire à direita.” – Ora, eu sei que, às vezes, posso ficar um pouco deprimido, mas também não é motivo para tanto… Além disso, numa autoestrada, insistiu comigo para fazer inversão do sentido de marcha! Em contramão? Numa autoestrada? Não acredito em teorias da conspiração, mas tenho quase a certeza que o meu GPS me quer transformar num daqueles idosos que conduzem veículos que não exigem a posse de carta de condução… Depois, as vozes do GPS são impessoais e sem piada. Deviam ser vozes mais familiares… Por exemplo: um GPS com voz de alentejano teria a sua piada – “Siga pelo IP8. Se não fossem os sucessivos governos, ia na A26.” Melhor ainda se a voz fosse de um daqueles alentejanos que ficam muito nervosos quando têm de ir a Lisboa, já que quando estivéssemos a 25 km da capital o mais provável seria ouvir: “Este trânsito é demais p’ra mim… O quê? Onde é que eu tenho que virar? Vamos para aonde? Estamos completamente rodeados… Autodestruir! Autodestruir!”… E, claro está, também seria imprescindível um GPS com a voz de Vitor Gaspar, para andarmos sempre na linha e aumentarem os acidentes por dormir ao volante: sempre que nos enganássemos no trajeto, soaria a mensagem automática – “O seu novo percurso será recalculado quando pagar as dívidas às finanças ou aceitar novos valores do IMI.” Todavia, o mais provável seria que quando Vítor Gaspar acabasse uma frase, já tivéssemos chegado ao destino: “Vi… re… à… es… quer…” e de repente tínhamos chegado à Zambujeira do Mar, vindos de Oslo...

Caro leitor, porque raio é que temos de clamar por alguém que nos oriente? Está mais que visto que se existissem GPS na época dos descubrimentos nunca teríamos chegado à Índia! Está na hora de lutar, uma vez mais, pela nossa independência… Nós conseguimos orientar-nos e escolher os nossos destinos! Não precisamos de uma máquina que nos diga para onde se deve ir… É altura de recomeçar a seguir as indicações das placas.

 

Texto publicado na página Não confirmo, nem desminto do Diário do Alentejo

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publicado por Ricardo Cataluna às 19:08 | link do post | Não confirmo, nem desminto

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